nº1355
Sermão pregado no domingo, 13 de maio de 1877
Por Charles Haddon Spurgeon
No Tabernáculo Metropolitano, Newington, Londres
FONTE: Livro "Os Milagres de Jesus: mensagens de fé, esperança e Salvação Vol 1"
Reproduzido com autorização da Sheed Publicações
"Saindo Jesus dali, dois cegos o
seguiram, clamando: 'Filho de Davi, tem misericórdia de nós!' Entrando ele em
casa, os cegos se aproximaram, e ele lhes perguntou: 'Vocês crêem que eu sou
capaz de fazer isso?' Eles responderam: 'Sim, Senhor!' E ele, tocando nos olhos
deles, disse: 'Que lhes seja feito segundo a fé que vocês têm!' A visão deles
foi restaurada" (Mateus 9.27,30).
Nas nossas ruas encontramos, aqui e ali, um mendigo cego,
mas nas cidades do Oriente eles existem em profusão. A oftalmia é o flagelo do
Egito e da Síria, e Volney declara que no Cairo, entre uma centena de pessoas,
vinte eram totalmente cegas, a dez delas faltava uma das vistas, e mais vinte
sofriam de diversos males nos olhos, em maior ou menor grau. Nos dias atuais,
todos reparam no grande número de cegos nos países orientais, e a situação era
provavelmente pior nos tempos do Salvador. Devemos nos sentir muito gratos
porque a lepra, a oftalmia e outras enfermidades tenham sido maravilhosamente
extirpadas dentre nós nos tempos modernos, de modo que a peste--que devastou a
nossa cidade há duzentos anos--é agora desconhecida, e nossos hospitais já não
se encontram superlotados com leprosos.
Existe hoje muita prevenção contra a cegueira, e muitas
vezes ela é curada, não sendo mais de ocorrência tão freqüente que se torne
causa da pobreza do país. Havia muitos cegos nos dias do Salvador, e diversos
se reuniam a seu redor; por isso lemos com tanta freqüência a respeito da cura
de cegos. A misericórdia foi ao encontro da desgraça em seu terreno. Onde a
tristeza humana mais se evidenciava, o poder divino era mais compassivo. Porém,
nos dias de hoje, é muito comum as pessoas serem espiritualmente cegas, e por
isso acalento grande esperança de que o Senhor Jesus agirá da mesma forma
daquela época, e demonstrará seu poder em meio ao mal que sobeja. Confio haver
algumas pessoas, neste momento, que desejam obter a visão espiritual, ansiando
especialmente, como os dois cegos do texto, por ver a Jesus, pois vê-lo é a
vida eterna. Falaremos aos que têm consciência de sua cegueira espiritual e que
almejam ver a luz de Deus--a luz do perdão, do amor e da paz, a luz da
santidade e pureza. Nosso grande desejo é que o manto das trevas seja
levantado, que o raio divino consiga adentrar nas sombras internas da alma, e
banir para sempre a noite da natureza carnal. Quem dera que o momento do raiar
do dia estivesse bem perto de muitos de vocês--"cegos por dentro". A
iluminação imediata é a bênção que imploro a favor de vocês. Sei que a verdade
pode permanecer na memória durante anos, e finalmente produzir frutos; mas
nesta ocasião, oramos por resultados imediatos, pois somente eles estão à
altura da natureza da luz mencionada.
No princípio, o Senhor disse apenas: "Haja
luz", e houve luz; e quando o Senhor Jesus habitou temporariamente aqui
embaixo, bastava-lhe tocar nos olhos dos cegos, e eles imediatamente recobravam
a visão. Quem dera que semelhante obra rápida fosse realizada nesta hora!
Homens levados pela mão até Jesus, ou que seguiam tateando pelas paredes até o
lugar onde sua voz lhe anunciava a presença, recebiam um toque do seu dedo, e
voltavam para casa por conta própria, regozijando-se porque Jesus lhes abrira
os olhos. Jesus permanece poderoso para operar semelhantes maravilhas; e, em
dependência do Espírito Santo, pregaremos sua palavra e aguardaremos os sinais
que se seguirão, na expectativa de vê-los de imediato. Por que centenas de
vocês que entraram neste Tabernáculo, nas trevas da natureza carnal, não
poderão sair daqui abençoados com a luz do céu? Esse, certamente, é o desejo
mais íntimo e urgente do nosso coração, e o desejo que almejamos com nossas
faculdades concentradas. Venham conosco, portanto, ao texto, e usem logo de
bondade suficiente consigo mesmos para se deixarem influenciar pelas verdades
que ele lhes apresentará.
I. Primeiro, ao explicar nossa passagem, devemos chamar a
atenção de vocês para os próprios interessados--os dois
cegos. Neles há um aspecto digno de imitação por todos os que quiserem ser
salvos.
Notamos, de imediato, que os dois cegos estavam totalmente
sérios. A palavra que descreve o apelo feito a Cristo é
"clamando"--falavam algo em alta voz! Clamar subentende implorar,
rogar e suplicar, com sinceridade, energia e paixão. Sua forma e postura
indicavam não se tratar de uma vontade passageira, mas de um anseio profundo e
apaixonado. Imaginem vocês como seria estar em semelhante situação. Como
ansiariam pela luz bendita se tivessem sido obrigados a permanecer nas
"trevas de duração perpétua", como diz Milton. Eles tinham fome e
sede da luz. Ora, nós não podemos ter esperança de salvação antes de a
buscarmos com igual vigor, mas quão poucos levam a sério essa salvação. Quão
sérios alguns homens são no tocante ao dinheiro, à saúde ou aos filhos! Como
são fervorosos nas questões da política ou dos negócios do seu bairro; porém,
tão logo você os questione a respeito da verdadeira piedade, ficam tão frios
quanto as neves árticas. Meus senhores, como isso é possível? Vocês podem
esperar ser salvos enquanto estiverem meio adormecidos? Esperam achar perdão e
graça enquanto continuam na indiferença? Se for assim, vocês estão muitíssimo
enganados, pois "o Reino dos céus é tomado à força, e os que usam de força
se apoderam dele" (Mt 11.12b).
A morte e a eternidade, o juízo e o inferno, não são
brincadeira; o destino eterno da alma não é algo desprezível, e a salvação pelo
sangue precioso de Cristo não é bagatela. Os homens não são salvos de descerem
ao inferno mediante um simples aceno de cabeça ou uma piscada de olho. Não
bastará um "pai-nosso" murmurado, um "Senhor, tem misericórdia
de mim" apressado. Os cegos teriam permanecido nesse estado sem o desejo
sincero de ter abertos os olhos; e, da mesma forma, muitos continuam em seus
pecados por falta de seriedade quanto ao desejo de escapar deles. Esses cegos
estavam plenamente acordados. E você, caro leitor? Pode me acompanhar nessas
duas estrofes?
"Jesus, que agora está passando,
nosso Profeta, Sacerdote, e Rei és tu;
escuta o clamor do pobre incrédulo,
e sara a cegueira do meu coração;
"Insto em meu pedido apaixonado.
Imploro tua misericórdia perdoadora,
mesmo criticado, não descansarei,
até restaurares a vista a meu espírito."
Os cegos perseveravam como
conseqüência da sinceridade, pois "seguiram" a Cristo, e assim
continuavam a apresentar seu caso. Como conseguiram seguir os movimentos do
Senhor? Não sabemos, pois eram cegos; entretanto, por certo, perguntavam pelo
caminho seguido por Jesus, e mantinham os ouvidos abertos ao mínimo som. Sem
dúvida, diziam: "Onde está ele? Onde está Jesus? Leve-nos, guie-nos.
Precisamos achá-lo". Não sabemos a distância percorrida pelo Senhor, mas
pelo menos sabemos que, por onde o Senhor passasse, eles o seguiriam.
Perseveravam com tanta coragem que, tendo chegado à casa onde Jesus estava, não
ficaram do lado de fora até que ele saísse de novo, mas entraram de forma
pressurosa na sala onde ele estava sentado. Eram insaciáveis para recuperar a
vista. Seus clamores insistentes interromperam a pregação de Jesus, e ele fez
uma pausa e escutou o que diziam: "Filho de Davi, tem misericórdia de
nós". Assim prevalece a perseverança: ninguém que conheça a arte da oração
inoportuna se perderá. Caso você resolva nunca se afastar do portão da
misericórdia até o porteiro o atender, ele certamente o abrirá. Se agarrar o
Anjo da Aliança com esta resolução: "Não te deixarei ir, a não ser que me
abençoes", você sairá mais que vencedor do lugar da luta. A boca aberta em
oração incessante resultará em olhos abertos na plena visão da fé. Ore, portanto,
nas trevas, mesmo que não haja esperança de luz, pois quando Deus--a própria
luz--, leva um miserável pecador a implorar e clamar diante dele com a séria
intenção de continuar a proceder assim até vir a bênção, não intenta
minimamente fazer pouco do pobre coração que clama. A perseverança na oração é
o sinal seguro de que se aproximou o dia da abertura dos olhos.
Os cegos tinham um objetivo específico nas
orações. Sabiam o que queriam, não eram crianças que choravam por nada, nem
cobiçosos que choravam por tudo; queriam enxergar, e sabiam disso. Existem
demasiadas almas cegas sem consciência de sua cegueira e, portanto, quando
oram, pedem tudo menos a única coisa necessária. Diversas das supostas orações
consistem em dizer palavras muito agradáveis, frases piedosas e muito bonitas;
entretanto, não são orações. A oração, "para os salvos", é comunhão
com Deus e, para as pessoas que buscam a salvação, a petição do que desejam e a
espera do recebimento em nome de Jesus -- em nome de quem pleiteiam diante de Deus.
Mas que tipo de oração é a que não tem nenhuma noção da necessidade, nenhum
pedido direto, nenhum pleito consciente? Caro leitor, você já pediu, em termos
específicos, que o Senhor o salve? Você já expressou a necessidade de um novo
coração, a necessidade de ser lavado no sangue de Cristo, a necessidade de ser
feito filho de Deus, e adotado em sua família?
Não existe oração, até que o homem saiba a favor do quê
ora, e use a oração com esse propósito, como se não se importasse com qualquer
outra coisa. Se já for sincero e inoportuno, instruído e cheio de desejos
específicos, terá certeza de ser bem-sucedido no pleito. Com braço forte, ele
estica o arco do desejo, e coloca na corda a flecha afiada do anseio apaixonado
e, depois, com olho treinado na percepção, mira deliberadamente e, portanto,
poderemos esperar que ele atinja o centro do alvo. Ore pedindo luz, vida,
perdão, salvação, e ore por essas coisas como toda a alma, e tão certamente
como Cristo está no céu, ele lhe dará suas boas dádivas. A quem ele já recusou?
Aqueles cegos, nas suas orações, honravam
Cristo, pois diziam: "Filho de Davi, tem misericórdia de
nós". Os grandes da terra não queriam reconhecer que o Senhor era de
descendência real, mas os cegos proclamavam com muito ânimo o Filho de Deus.
Eram cegos, mas conseguiam enxergar muito mais que as pessoas com vista
aguçada; isso porque enxergavam o Messias no Nazareno, enviado por Deus para
restaurar o reino a Israel. Dessa crença, entenderam que Jesus, por ser o
Messias, abriria os olhos dos cegos, e poderia abrir os olhos cegos deles; e assim,
pediram-lhe para realizar as obras próprias do seu messiado, e o honraram com
fé prática e genuína. Esse é o tipo de oração que sempre terá atendimento
rápido no céu, a oração que coroa o Filho de Davi. Ore, glorificando a Cristo
Jesus, engrandecendo-o, pleiteando muito o mérito da sua vida a morte,
dando-lhe títulos gloriosos porque sua alma tem alta reverência e vasta estima
por ele. Orações de adoração a Jesus possuem a força e a rapidez das asas de águias;
forçosamente sobem até Deus, pois os elementos do poder celestial sobejam
nelas. A oração que atribui pouco valor a Cristo é a oração à qual Deus dará
pouco valor; mas a oração na qual a alma glorifica o Redentor sobe como coluna
perfumada de incenso do Santo dos Santos, e o próprio Senhor a acolhe como
perfume suave.
Observe também que os dois cegos, na oração, confessaram
sua falta de merecimento: "Filho de Davi, tem
misericórdia de nós!". Seu único apelo era à misericórdia. Ninguém falou
em mérito, nem usava como argumento os sofrimentos do passado, a perseverança,
as boas resoluções quanto ao futuro, mas somente: "Tem misericórdia de
nós". Quem exige da parte de Deus uma bênção como se tivesse direito a
ela, nunca a conseguirá. Devemos implorar a Deus como o criminoso apela ao
soberano e implora pelo exercício da prerrogativa real do livre perdão. Como o
mendigo pede esmolas na rua, ao pleitear sua necessidade, solicita uma oferta
por amor à caridade, também devemos requerer ao Altíssimo--apelando ad
misericordiam--e dirigir nossas súplicas à bondade amorosa e ternas
misericórdias do Senhor. Devemos pleitear da seguinte maneira: "Ó Deus, se
tu me destruíres, eu o mereço. Se tu nunca me dirigires um olhar de consolo,
não tenho de que me queixar. Mas, Senhor, salva um pecador, por tua
misericórdia. Não tenho o mínimo direito de pedir nada, mas oh, porque tu és
cheio de graça, olha para uma miserável alma cega que deseja
contemplar-te".
Meus irmãos, não sei juntar palavras altissonantes. Nunca
me dediquei à escola da oratória. Na realidade, meu coração acha repugnante a
própria idéia de falar com delicadeza quando as almas passam perigo. Pelo
contrário, meu empenho é falar diretamente ao coração e à consciência de vocês,
e se houver, nesta multidão de ouvintes, alguém que esteja escutando da maneira
certa, Deus abençoará a palavra pregada. "E que tipo de escutar é
este?", diz você. É claro: é o escutar no qual o homem diz: "À medida
que eu perceber que o pregador proclama a Palavra de Deus, eu o seguirei, e
farei o que, segundo sua descrição, o pecador que busca a Deus deve fazer.
Nesta noite, orarei e pleitearei, e perseverarei nas minhas súplicas,
esforçando-me para glorificar o nome de Jesus, e, ao mesmo tempo, confessarei
minha indignidade. Dessa maneira, rogarei por misericórdia da parte do Filho de
Davi". Bem-aventurado o pregador que souber que assim acontecerá.
II. Agora, faremos uma breve pausa para lidar, em
segundo lugar, com a pergunta que lhes foi postulada. Desejavam
a abertura dos seus olhos. Os dois estavam em pé diante do Senhor, a quem não
conseguiam ver, embora ele pudesse enxergá-los e se revelar a eles mediante a
audição. Começou a fazer-lhes perguntas, não com o intuito de conhecê-los, mas
a fim de que eles conhecessem a si mesmos. Fez uma única pergunta a eles:
"Vocês crêem que eu sou capaz de fazer isso?". A pergunta tocou na
única coisa que se interpunha entre eles e sua vista. Da resposta deles
dependia se sairiam daquele local como homens dotados de visão, ou cegos: "Vocês
crêem que eu sou capaz de fazer isso?". Ora, acredito que entre todo
pecador que está buscando e o próprio Cristo existe apenas essa única pergunta:
"Você crê que eu sou capaz de fazer isso?", e se alguma pessoa puder
responder com sinceridade, como os homens da narrativa, "Sim,
Senhor!", certamente receberá a resposta: "Que lhe seja feito segundo
a fé que você tem!".
Examinemos, portanto, essa pergunta muito importante com
a máxima atenção. Diz respeito à sua fé: "Vocês
crêem que eu sou capaz de fazer isso?". Ele não lhes perguntou sobre seu
caráter no passado, pois quando as pessoas vêm a Cristo, o passado lhes é
perdoado. Não lhes perguntou se experimentaram vários meios de obter a abertura
dos olhos, por que, pelo sim ou pelo não, permaneciam cegos. Nem lhes perguntou
se consideravam a existência de um médico misterioso que levasse a efeito a
cura em algum estado futuro. Não. Perguntas derivadas da curiosidade e
especulações vãs nunca são sugeridas pelo Senhor Jesus. Suas perguntas
concentravam-se no exame de um único assunto: a fé. Criam que ele, o Filho de
Davi, pudesse curá-los? Por que nosso Senhor, em todos os lugares, não só no
ministério, mas também no ensino dos apóstolos, sempre ressalta a fé? Por que a
fé é fundamental? Por sua capacidade receptiva. A bolsa não deixará ninguém
rico; porém, sem lugar para colocar o dinheiro, como o homem poderá acumular
riquezas? A fé, por si só, não pode contribuir com um tostão para a salvação,
mas ela se serve da bolsa que contém em si o Cristo precioso--sim, ela guarda
todos os tesouros do amor divino.
Se alguém tiver sede, a corda e o balde, por si sós, não
têm muita utilidade, mas, senhores, se houver um poço por perto, exatamente o
que se precisa é de um balde e uma corda, por meio dos quais a água possa ser
tirada. A fé é o balde por meio do qual o homem pode tirar água dos poços da
salvação, e beber até satisfazer-se totalmente. Talvez você tenha feito uma
breve parada em uma fonte pública na rua, desejoso de beber, mas verificou não
ser possível, pela ausência da taça de metal. A água fluía, mas você não podia
alcançá-la. Era terrível postar-se à saída da fonte, e continuar com sede pela
falta da pequena taça. Ora, a fé é a taça pequena, que seguramos para receber
as correntezas da graça de Cristo: enchemo-la, e então bebemos e recebemos o
refrigério. Daí a importância da fé. Para nossos antepassados, teria parecido
algo vão deitar um cabo sob o mar desde a Inglaterra até a América do Norte, e
permaneceria inútil até hoje, se a ciência não nos tivesse ensinado a falar por
meio da eletricidade; porém, agora o cabo é da máxima importância, pois a
telegrafia não teria a mínima utilidade para a comunicação transatlântica, se
não existissem os fios de conexão entre os dois continentes. A fé é exatamente
isso: a ligação entre a alma e Deus, e a mensagem viva passa rapidamente por
ela até atingir a alma. A fé às vezes é fraca, comparável ao fio muito fino,
mas ela não deixa de ser algo muito precioso, por ser o início de grandes
coisas. Há muitos anos, queriam lançar uma ponte suspensa sobre um abismo
imenso, através do qual fluía, abaixo, um rio navegável. Entre uma ponta
rochosa e outra, o propósito era fixar uma ponte de ferro, lá nas alturas. Mas,
como começar? Atiraram uma flecha de um lado para o outro, e ela levou um fio
que atravessou o abismo.
Aquele fio, quase invisível, foi suficiente para o
começo. A conexão foi estabelecida; pouco tempo depois, o fio puxou um
barbante, e o barbante puxou uma corda, e a corda não demorou em levar um cabo
para o outro lado e, no tempo devido, seguiram-se correntes de ferro e todas as
coisas necessárias para a via permanente. Ora, a fé é muitas vezes fraca; mesmo
nessa situação, mantém o valor máximo, por formar uma comunicação entre a alma
e o Senhor Jesus Cristo. Caso creia nele, haverá uma ligação entre ele e você;
sua pecaminosidade descansa na graça dele, sua fraqueza depende da força dele;
o nada que você é, esconde-se na suficiência total dele; entretanto, se não
crer, estará separado de Jesus, e nenhuma bênção poderá fluir até você. Dessa
forma, a pergunta que quero dirigir, em nome do meu Mestre, a cada pecador que
o busca, diz respeito à sua fé, e nada mais. Não me importa se você é
milionário, ou se ganha pouquíssimo por semana, se é nobre ou plebeu, da
realeza ou do campo, erudito ou ignorante. Temos o mesmo evangelho para
entregar a cada homem, mulher e criança, e precisamos ressaltar a mesma
questão: "Você crê?". Caso creia, será salvo, mas se não crer, não
poderá participar das bênçãos da graça.
Note, em seguida, que a pergunta dizia respeito à
fé em Jesus: "Vocês crêem que eu sou capaz de fazer isso?".
Se perguntássemos ao pecador despertado: "Você acredita poder salvar a si
mesmo?", sua resposta seria: "Não, nada disso: estou bem informado.
Minha auto-suficiência está morta". Se lhe perguntássemos, em seguida:
"Acredita que as ordenanças, os meios da graça e os sacramentos poderão
salvar você?". Se for alguém arrependido, inteligente e consciente,
responderá: "Sou bem informado. Experimentei-os, mas por si só são total
vaidade". Realmente é assim, nada permanece em nós, e à nossa volta, sobre
o qual a esperança possa edificar, sequer por uma hora. Mas essas perguntas
ultrapassam o ego e nos colocam somente em Jesus, ao mandar-nos escutar o próprio
Senhor dizer: "Vocês crêem que eu sou capaz de fazer isso?". Ora,
amados, não falamos a respeito de mera pessoa histórica quando nos referimos ao
Senhor Jesus Cristo; falamos de alguém que está acima de todos os outros. Ele é
o Filho do Altíssimo, mas, mesmo assim, veio até esta terra e nasceu em Belém.
Dormia ao peito de uma mulher, e cresceu como as outras crianças. Tornou-se um
homem na plenitude da estatura e da sabedoria, e viveu aqui trinta anos ou
mais, praticando o bem. No fim, esse glorioso Deus em carne humana "sofreu
[...] o justo pelos injustos, para conduzir-nos a Deus" (1Pe 3.18), e
assumiu o lugar e a vez do homem culpado, para suportar-lhe o castigo--a fim de
que Deus seja justo e justificador do que crê. Ele morreu e foi sepultado, mas
por pouco tempo o sepulcro o pôde manter ali; ressuscitou na manhã do terceiro
dia, saiu dentre os mortos, para nunca mais morrer. Permaneceu aqui por tempo
suficiente para ser visto vivo, no próprio corpo, por muitos.
Nenhum acontecimento da História é tão bem documentado
quanto a ressurreição de Cristo -- visto por pessoas que estavam sós e por
grupos de dois, vinte e mais de quinhentos irmãos de uma só vez. E tendo vivido
aqui por breve tempo, subiu ao céu na presença dos discípulos, quando uma nuvem
o encobriu da vista deles. Agora está sentado à destra de Deus, em forma
humana: o mesmíssimo homem que morreu no madeiro está entronizado nos mais
altos céus como Senhor de tudo, e todos os anjos se deleitam em lhe prestar
homenagem. A única pergunta que ele lhes
faz, por meio destas modestas palavras, é: "Você crê que eu seja capaz de
salvá-lo? Eu, o Cristo de Deus que agora habito no céu, sou capaz de
salvá-lo?". Tudo depende da resposta a essa pergunta. Sei qual deve ser
sua resposta. Por certo, sendo ele Deus, nada é impossível nem difícil para
ele. Por ter entregado a vida para realizar a expiação, e pela aceitação divina
desse ato, permitindo-lhe ressuscitar dentre os mortos, deve haver, portanto,
eficácia no seu sangue para purificar a mim, até mesmo a mim. A resposta deve
ser: "Sim, Senhor Jesus, creio que tu és capaz de fazer isso".
Agora, porém, quero ressaltar outra palavra do meu texto,
e quero que você a
ressalte também: "Vocês crêem que eu sou capaz de fazerisso?".
Ora, não teria sido muito útil para esses cegos dizerem: "Cremos que tu és
capaz de ressuscitar os mortos". "Não", diz Cristo, "a
questão em pauta é a abertura dos seus olhos. Vocês crêem que eu sou capaz de
fazer isso?". Eles poderiam ter
respondido: "Bom Mestre, cremos que estancaste o fluxo de sangue da mulher
quando ela tocou na tua roupa". "Não", diz ele, "essa não é
a questão em pauta. Agora, são seus olhos que precisam ser atendidos. Vocês
querem enxergar, e a pergunta a respeito da sua fé é: "Vocês crêem que eu
sou capaz de fazer isso?".
Ah, alguns de vocês conseguem crer a favor de outras pessoas, mas devemos
aplicar essa pergunta mais plenamente a vocês e dizer: "Você crê que eu
sou capaz de salvar você --você mesmo? Ele é capaz de
fazer isso?". É possível que eu esteja falando com alguém que foi muito
longe no pecado. Pode ser, meu amigo, que você tenha concentrado muita
iniqüidade em um espaço pequeno. Talvez você tenha desejado uma vida breve, mas
bastante animada e, segundo as perspectivas atuais, você tenha grande
probabilidade de viver brevemente, mas o divertimento quase acabou com você e,
ao relembrar sua vida, reflita que nunca um jovem jogou fora a vida de forma
mais estulta do que você. Agora, pois, você deseja ser salvo? Pode dizer de
todo o coração que você assim deseja? Responda, portanto, a essa pergunta
adicional: Você crê que Jesus Cristo é capaz de fazer isso, especificamente:
apagar todos os seus pecados, renovar seu coração,
e salvar você hoje?
"Oh, senhor, creio mesmo que ele é capaz de perdoar o pecado". Mas
você crê que ele é capaz de perdoar o seu pecado?
Você, pessoalmente, é o caso em pauta; neste aspecto, sua fé está firme? Deixe
de lado as outras pessoas, neste momento, e considere a si mesmo. Você crê que
ele é capaz de fazer isso? Isso--seu
pecado, essa vida desperdiçada, Jesus é capaz de lidar com isso? Tudo
depende da sua resposta a esta pergunta. É inútil a fé que sonha em crer no
poder do Senhor no tocante a outras pessoas, mas não confia em Jesus para si
mesma. Você deve crer que ele é capaz de fazer isso--isso
que diz respeito a você, senão, para todos os fins práticos, você não passa de
um incrédulo.
Sei que estou falando a numerosas pessoas que nunca
cederam aos vícios do mundo. Dou graças a Deus, em nome de vocês, por terem
sido conservados nos caminhos da moralidade, sobriedade e honestidade; mas já
conheci alguns de vocês que quase desejaram, ou pelo menos lhes ocorreu que
poderiam quase desejar--ter sido grandes pecadores descarados, a fim de receber
as pregações dirigidas a esses pecadores flagrantes, para ver em si mesmos a
transformação igual à vista em alguns deles, a respeito de cuja conversão vocês
nunca poderiam duvidar. Não se permitam semelhante desejo pouco sábio, mas
escutem enquanto postulo também esta pergunta. Vocês estão no caso do moralista
que obedeceu a todo o dever externo, mas negligenciou seu Deus--o caso do
moralista que se sente como se o arrependimento lhe fosse impossível, porque já
faz tanto tempo que está sendo devorado pelo próprio farisaísmo, que nem sabe
mais extirpar a gangrena. O Senhor Jesus Cristo pode tão facilmente salvar você
do seu farisaísmo, quanto pode salvar outra pessoa de seus hábitos culpáveis.
Você crê que ele é capaz de fazer isso? Vamos,
pois você crê que ele pode atender a isso, o caso
específico em que você está? Quero a resposta, "sim" ou
"não" a essa pergunta.
"Ai de mim!", exclama um de vocês, "meu
coração é tão duro". Você acredita que ele pode amolecê-lo? Suponhamos que
seja tão duro como o granito: você agora acredita que o Cristo de Deus poderá
transformá-lo em cera em um só momento? Concedamos que seu coração seja tão
instável como o vento e as ondas do mar: você consegue crer que Cristo lhe
poderá dar mente estável e firmar você na Rocha Eterna para sempre? Se você
crer nele, ele o fará a seu favor, visto que lhe será feito de acordo com a fé
que tem. Mas sei que é justamente aqui o aspecto difícil. Todos procuram se
refugiar no conceito de que realmente confiam no poder de Cristo para os
outros, mas estremece quanto a si mesmo; entretanto, preciso fazer cada um
enfrentar a questão que diz respeito a si mesmo, preciso pegar cada um pelos
colarinhos e submeter ao teste genuíno. Jesus pergunta a cada um de vocês:
"Você crê que eu sou capaz de fazer isso?".
Alguém diz: "Ora, seria a coisa mais surpreendente
que o Senhor Jesus fez, se ele fosse me salvar hoje". Você crê que ele o
pode fazer? Quer confiar nele agora? "Mas semelhante milagre será uma
coisa tão estranha!". O Senhor Jesus opera coisas maravilhosas: é o jeito
dele. Sempre foi um operador de milagres. Você consegue crer que ele é capaz de
fazer isso a favor de você -- isto que agora é necessário para salvá-lo?
É maravilhoso o poder que a fé possui--poder para
influenciar o próprio Senhor Jesus. Já experimentei muitas vezes, à minha
maneira, como a confiança domina as pessoas. Vocês não foram conquistados pela
confiança de uma criancinha? O pedido singelo estava demasiadamente cheio de
confiança para ser recusado. Já ocorreu um cego agarrar-se a você em uma
travessia da rua, e dizer-lhe: "Senhor, pode me ajudar a atravessar a
rua?". E depois, talvez, ele tenha acrescentado de modo quase sutil:
"Sei pelo tom da sua voz que o senhor é gentil. Acho que posso confiar-me
a seus cuidados". Em semelhante momento, você se sentiu envolvido; não
poderia abandoná-lo. E quando uma alma diz a Jesus: "Sei que podes me
salvar, meu Senhor: sei que és capaz disso e, portanto, em ti confio", ele
não poderá repudiá-lo, não poderá desejar fazer assim, pois já disse:
"quem vier a mim eu jamais rejeitarei". Às vezes conto uma história
para ilustrar esse fato; o conto é bastante singelo, mas demonstra como a fé
vence em todas as circunstâncias. Há muitos anos, meu jardim tinha uma cerca
viva, bastante verdejante, mas que pouco protegia. O cachorro de um vizinho
gostava de visitar meu jardim e, visto que ele nunca cultivou minhas flores,
jamais lhe ofereci boas-vindas cordiais.
Andando quieto por ali, certo fim de tarde, vi-o fazendo
algum dano. Joguei nele uma vara e o aconselhei a volta para casa; mas como a
boa criatura me respondeu? Virou-se em minha direção, abanou o rabo e, da
maneira mais brincalhona, pegou a vara, trouxe-a a mim, e a colocou a meus pés.
Eu bati nele? Não, não sou monstro. Teria me envergonhado se não lhe tivesse
afagado o dorso e o convidado a voltar a meu jardim sempre que quisesse. Ele e
eu passamos imediatamente a ser amigos porque, como vocês percebem, ele confiou
em mim e me conquistou. Ora, por mais singela que seja essa história, é
exatamente essa a filosofia da fé singela em Cristo da parte do pecador. Como o
cachorro conquistou o homem ao confiar nele, também o miserável pecador
conquista, com o efeito, o próprio Senhor ao confiar nele e dizer:
"Senhor, sou um miserável cachorro de pecador, e poderás me expulsar, mas
creio que tu és bondoso demais para isso. Creio que podes me salvar e eis que
me confio às tuas mãos. Quer eu seja perdido ou salvo, confio minha pessoa a
ti". Ah, amado, você não permanecerá perdido se assim confiar. Quem confia
em Jesus já deu a resposta à pergunta: "Você crê que eu sou capaz de fazer
isso?", e nada mais lhe falta senão seguir pelo caminho, regozijando-se,
porque o Senhor lhe abriu os olhos e o salvou.
III. Agora, em terceiro lugar, a
pergunta era muito razoável: "Vocês crêem que eu
sou capaz de fazer isso?". Em um só minuto, quero demonstrar a
razoabilidade de Cristo postulá-la, e igualmente se me é permitido aplicá-la
insistentemente a muitas pessoas. O Senhor Jesus poderia ter dito: "Se
vocês não acreditam que eu sou capaz de fazer isso, por
que me seguiram? Por que seguiram a mim mais e
não a outra pessoa? Vocês me seguiram pelas ruas, e entraram nesta casa à minha
procura. Por que fizeram assim, se não acreditam que posso lhes abrir os
olhos?". Da mesma forma, muitos de vocês freqüentam lugares de culto;
gostam de estar presentes, mas por quê, se não acreditam em Jesus? Para que
vocês freqüentam cultos? Comparecem para procurar um Salvador que não pode
salvá-los? Procuram tolamente uma pessoa em quem não poderão confiar? Nunca
ouvi falar de tamanha loucura como o doente correr atrás do médico em quem não
tem a mínima confiança. E vocês que freqüentam lugares de culto em outras
ocasiões sem ter a mínima fé em Jesus? Então, por que freqüentam? Que pessoas
incoerentes vocês devem ser!
Além disso, esses cegos tinham orado a Jesus para ele
lhes abrir os olhos, mas por que oraram? Se não
acreditassem que Jesus os poderia curar, suas orações seriam zombaria. Você
pediria que um homem fizesse uma coisa que você sabe ser ele incapaz de fazer?
A oração não deve ser sempre medida de acordo com a quantidade de fé nela
colocada? Pois bem, sei que alguns de vocês costumam orar desde criança; quase
nunca vão dormir à noite sem repetir a oração ensinada pela mãe. Para que fazem
isso, se não acreditam que Jesus Cristo pode salvá-los? Para que pedir o que
vocês não acreditam que ele pode fazer? Que incoerência estranha--orar sem fé!
Esses dois cegos também tinham chamado Jesus Cristo
"Filho de Davi". Por que confessaram seu
messiado desse modo? A maioria de vocês faz a mesma coisa. Suponho
que pouquíssimas pessoas da sua congregação duvidem da divindade de Cristo.
Vocês acreditam na Palavra de Deus: não duvidam de sua inspiração, acreditam
que Jesus Cristo viveu, morreu e passou para a glória. Pois bem: se vocês não
acreditam que ele é capaz de salvá-los, qual é o significado de afirmar que ele
é Deus? Um Deus incapaz? Sacrifício expiador sangrento e mortal, mas sem a
capacidade de salvar? Oh, homem, seu credo nominal não é o verdadeiro. Se você
escrevesse por extenso seu credo verdadeiro, seria algo assim: "Não creio
que Jesus Cristo seja o Filho de Deus, nem que ele realizou plena expiação pelo
pecado, pois não acredito que ele possa me salvar". Isso não seria correto
e coerente?
Pois bem, insto com vocês, em nome das freqüentes vezes
que escutam a Palavra, em nome das orações freqüentes e da profissão de crerem
na grandiosa velha Bíblia, que me respondam: Como vocês não crêem em Jesus?
Senhores, ele é capaz de salvá-los. Vocês sabem que já se passaram mais de 27
anos desde que coloquei nele minha confiança, e devo falar dele segundo minha
experiência com ele. Em todas as horas de trevas, em cada período de desânimo,
em cada ocasião de provação, achei-o fiel e verdadeiro; e quanto a confiar-lhe
minha alma, se eu tivesse mil almas as confiaria às mãos dele; e se tivesse
tantas almas quanto há grãos de areia na praia, não pediria um segundo ao
Salvador, simplesmente colocaria todas elas na querida mão traspassada pelo
prego, a fim de que ele nos agarrasse e nos segurasse com firmeza para sempre.
Ele é digno da confiança de vocês, e ele só lhes pede essa confiança -- e não
duvidem de que ele está disposto, já que entregou sua vida com esse propósito
-- ele pede que vocês ajam à altura da crença de que ele pode salvá-los, e que
confiem nele.
IV. Ora, não devo detê-los por muito mais, e por
isso quero destacar a resposta que os cegos deram à sua pergunta.
Responderam-lhe: "Sim, Senhor!". Pois bem, já andei lhe fazendo com
instância, e a repito de novo. Você acredita que Cristo é capaz de salvar você,
e que ele é capaz de fazê-lo de modo a cuidar do seu caso em sob todos os
aspectos especiais? Agora vem sua resposta. Quantos dirão "Sim,
Senhor"? Estou quase disposto a pedir que vocês o façam em voz alta, mas
prefiro rogar-lhes a dizê-lo no recôndito da alma: "Sim, Senhor". E,
agora, que Deus o Espírito Santo os ajude a dizê-lo de forma muito distinta, sem
hesitação nem reservas mentais: "Sim, Senhor. O olho cego, a língua muda,
o coração frio -- creio que tu és capaz de transformar a todos, e confio
totalmente em ti, para ser renovado pela tua graça divina". Diga isso com
toda a sinceridade. Diga-o de modo decidido e distinto, de todo o coração:
"Sim, Senhor".
Repare que os dois homens responderam imediatamente. Tão
logo a pergunta foi feita por Jesus, deram a resposta: "Sim, Senhor".
Nada se compara a ser pronto para responder; isso porque, quando você apresenta
uma pergunta a alguém, e diz: "Você crê que sou capaz de fazer
isso?", e a pessoa pára, esfrega a testa, passa a mão na cabeça, e
finalmente diz: "S...sim", esse "sim" não se assemelha ao
"não?". O melhor "sim" no mundo é o que sai pulando, de
imediato. "Sim, Senhor; por pior que eu seja, creio que tu podes me
salvar, pois sei que teu sangue precioso pode remover toda mancha. Embora eu
seja um pecador de longo tempo, de caso agravado, alguém que se desviou da
religião que professava, agindo como desviado, embora eu pareça a escória da
sociedade, não tenha os sentimentos que gostaria de sentir, creio, porém, que
Cristo morreu em prol de pecadores, e que o eterno Filho de Deus entrou no céu
a fim de pleitear a favor deles, logo ele deve ser poderoso para "salvar
definitivamente aqueles que, por meio dele, aproximam-se de Deus" (Hb 7.25),
e nesta noite me aproximo de Deus por meio dele, e creio que ele é capaz de
salvar até mesmo a mim". Esse é o tipo de resposta que anseio ouvir da
parte de todos vocês. Que o Espírito de Deus produza uma essa resposta!
V. Vejamos, agora, a reação
do Senhor à resposta deles. Disse: "Que lhes seja feito
segundo a fé que vocês têm!". É bom como se ele tivesse dito: "Já que
vocês crêem em mim, há luz para seus olhos cegos. Como é perfeita a fé, assim
são perfeitos os olhos. Se vocês crerem de modo decidido e pleno, não receberão
a visão de um só olho, nem a semi-abertura, mas a visão lhes será concedida
integralmente". A fé firme e decidida limpará toda mácula, e deixará sua
vista forte e nítida. Se vocês apresentarem uma resposta rápida, assim será
rápido meu modo de corresponder. Vocês recuperarão a vista em um só instante,
pois creram de imediato. O poder do Senhor simplesmente acompanhou a fé da
parte deles. Por terem fé firme, foi genuína a cura da parte dele. Tinham fé
completa, e a cura da parte dele também o foi; já que disseram "sim"
imediatamente, ele lhes concedeu a visão imediatamente.
Se você demorar muito tempo até dizer "sim",
também demorará muito para obter a paz; mas se você disser neste dia: "Vou
me entregar, pois percebo que é assim; Jesus é capaz de me salvar; eu me
entregarei a ele"; se você fizer assim de imediato, terá a paz imediata --
sim, nesse mesmo assento, jovem, você está sentindo um fardo nesta noite e
achará o descanso. Ficará imaginando aonde foi o fardo, e olhará ao redor e descobrirá
que sumiu, porque você olhou para o Crucificado e confiou-lhe todos os seus
pecados. Os maus hábitos que procurava vencer, em vão, e que forjaram novas
correntes para mantê-lo preso, você os verá cair como teias de aranha. Se
tão-somente confiar em Jesus para rompê-las, e se entregar a ele para ser
renovado, assim será feito, e agora; e a abóbada eterna dos céus reverberará
com gritos de graça soberana.
Assim, coloquei a questão eterna diante de vocês. Minha
única esperança é que Deus, o bendito Espírito, os oriente enquanto buscam,
como os cegos buscaram e, de forma especial, que confiem como eles confiaram.
A última palavra: existem algumas pessoas especialmente
diligentes em procurar razões para não serem salvas. Já debati com algumas
pessoas assim, por uns trinta minutos, e sempre terminam a conversa dizendo:
"Sim, isso é verdade, senhor, mas...". E então procuramos despedaçar
aquele "mas"; no entanto, descobrem outro, e dizem: "Sim, agora
entendo isso, mas...". E fortalecem sua incredulidade com o "mas".
Se alguém aqui quisesse lhe dar bastante dinheiro, você poderia me apresentar
alguma razão por que ele não deveria fazê-lo? Ora, imagino que se ele se
chegasse até você e lhe oferecesse o montante em dinheiro vivo, você não se
preocuparia em descobrir objeções; não ficaria repetindo: "Gostaria do
dinheiro, mas...". Ao contrário, se existisse alguma razão por que você
não o devesse receber, deixaria outras pessoas descobri-la. Você não labutaria
nem faria um grande esforço mental para procurar descobrir argumentos contra si
mesmo; você não é tão inimigo seu. No entanto, no tocante à vida eterna,
infinitamente mais preciosa que todos os tesouros deste mundo, os homens agem
do modo mais absurdo e dizem: "Desejo-o com muita sinceridade, e Cristo é
capaz de fazê-lo, mas...". Quanta estultícia, argumentar contra si mesmo!
Se um homem estivesse no corredor da morte em Newgate, e tivesse que subir ao
cadafalso na manhã seguinte, e o xerife viesse e dissesse: "Há perdão
total para você"; acha que esse homem levantaria objeções? Exclamaria:
"Gostaria de mais meia-hora para considerar meu caso e descobrir razões
para eu não ser perdoado?". Não, ele aceitaria a oferta de imediato. Que
você também aceite, de um só pulo, o perdão hoje. Que o Senhor lhe conceda
sentir tamanha convicção de perigo e culpa que você clame prontamente:
"Creio, sim; em Cristo ponho a minha confiança".
Os pecadores não têm a metade do bom senso dos pardais.
Davi disse: "Não durmo, e sou como o pardal solitário no telhado"
(Sl 102.7). Pois bem, você já observou o pardal? Ele mantém os olhos
abertos, e no mesmo momento em que vê um grão de trigo ou outra coisa
comestível na rua, voa para pegá-lo. Nunca soube que ele espera por um convite,
e muito menos que alguém rogue e implore para ele vir alimentar-se. O pardal vê
a comida e diz para si mesmo: "Aqui está um pardal faminto, e ali um
pedacinho de pão. Essas coisas ficam bem juntas, e não permanecerão separadas
por muito tempo". Desce voando, e devora tudo o que consegue achar, tão
logo o ache. Se você tivesse metade do bom senso do pardal, diria: "Aqui
está um pecador culpado, e ali está o Salvador precioso. Essas coisas ficam bem
juntas, e não permanecerão separadas por muito tempo. Creio em Jesus, e Jesus é
meu".
Que o Senhor lhe conceda encontrar Jesus agora. Oro para
que assim aconteça. Onde você está você pode olhar para Jesus Cristo, e crer. A
fé é o simples olhar, o olhar de confiança simples. É depender de Cristo, crer
que ele poderá fazê-lo, e confiar que ele o fará, agora. Deus abençoe a cada um
de vocês, e que nos encontremos no céu, por causa de Cristo. Amém.
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Informações técnicas:
1a Edição - Setembro de 2007
ISBN 978-85-88315-61-7



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